sexta-feira, 24 de junho de 2016

São João do Boi Bumbá

Para minha surpresa não era feriado no Dia de São João na cidade de São Luís, Maranhão, e os ludovicenses festejavam a data com todas as atividades normais, sem paralização, como ocorre aqui em Pernambuco. Achei que iria encontrar a cidade fechada e os pontos turísticos sem muitas pessoas circulando, o que não aconteceu. A cidade estava movimentada e propícia para passeios e compras, embora o diferencial da cidade seja o centro histórico e todas as apresentações culturais que são realizadas nas redondezas.
Pude ver o Tambor de Crioula, que tem forte influência do candomblé e dos seus terreiros. A manifestação acontece em rodas de samba e tem toque bem repetitivo, tornando a apresentação até meio confusa em dado momento, pois não se escuta bem o que estão cantando, já que vozes e sons se misturam de maneira surpreendente. Em determinados momentos só escutávamos aquele som cíclico que deixava a nossa cabeça meio confusa, mas mesmo assim era impossível não se envolver e até dançar um pouco ao ritmo negro que nos contagiava.
Vi também uma Quadrilha Junina bem elaborada, que é igual as demais que já tinha visto em outros Estados, mudando apenas o jeitinho peculiar que cada um tem de criar suas roupas e gestos. Outra manifestação folclórica foi o Lelê, que tem ritmo mais leve, embalado por violões e outros instrumentos; duas filas, uma de homens e outra de mulheres, seguem passos ditados por um mandante, que vai alternando os comandos e tornando a apresentação mais cativante, fazendo com que no final todos possam participar e dançar.
Bumba meu Boi é o rei da festa mais tradicional da região; praticamente em todos os lugares temos a oportunidade de ver o animal folclórico, que depende de um miolo, homem que comanda o boi, sendo cortejado pelos índios, cantadores e cazumbas, que são os protetores das florestas na tradição local.
É uma festa bem diferente da que estou acostumado a ver aqui em Pernambuco, pois aqui o forró esquenta os casais e faz com que a festa seja ao ritmo do aconchego e do fungado no pescoço. Lá os festejos são mais contemplativos e as apresentações mostram uma cultura popular mais apegada aos detalhes e vestimentas dos grupos que se apresentam. 
Temos uma noção maior do folclore vivo e percebemos menos a influência de ritmos que não são característicos da nossa festa e que terminam sendo incluídos nos festejos para atrair multidões. Não encontrei aglomerados em São Luis neste São João e percebi que a festa prima pelo autêntico folclore e todas as histórias que ele nos apresenta diariamente, pois em cada ritmo apresentado sempre há uma lenda a ser contada ou uma reverência religiosa a ser destacada, algo que não acontece tanto na matutice que hoje se esconde nos forrós eletrônicos e ritmos fora do padrão cultural que aprendemos a admirar e muitas vezes sentir a perda das suas características.
Gostei muito do que vi, pois admiro demais o que é natural e que tem características preservadas, ainda mais quando isso é refletido em cultura e em tudo que ela pode nos apresentar. A vestimenta rica do Bumba meu Boi é o retrato disso e mostra que de pequenos detalhes podemos fazer uma grande cultura e mostrar que a riqueza não está somente no público gigantesco, mas nas raízes bem firmadas que as tradições levaram séculos para imortalizar.
Voltarei em outro período junino, mas pelo que percebi as manifestações folclóricas já fazem parte da cidade e não se concentram somente em épocas distintas do ano. Vale a pena conferir o São João do Maranhão e tudo que ele tem a nos oferecer.
Tudo isso me fez lembrar uma música que o Edson Cordeiro cantou em um dos seus álbuns e que fala da riqueza e dos festejos do Bumba meu Boi. Utilizo a canção para finalizar esta publicação:

"Ele não sabe que seu dia é hoje! Ele não sabe que seu dia é hoje!
O céu forrado de veludo azul marinho veio ver devagarinho onde o boi ia dançar... 
Ele pediu para não fazer muito ruído que o santinho distraído foi dormir sem se lembrar... 
E vem de longe o eco surdo do bumbá sambando a noite inteira encurralado batucando... 
Bumba meu "Pai do Campo", ô, ô, ô Bumba meu boi bumbá 

Estrela D'alva lá no céu já vem surgindo acordou quem está dormindo por ouvir galo cantar... 
Na minha rua resta cinza da fogueira que levou a noite inteira fagulhando para o ar.
E vem de longe o eco surdo do bumbá sambando a noite inteira encurralado batucando... 
Bumba meu "Pai do Campo", ô, ô, ô Bumba meu boi bumbá...bumba meu Boi Bumbá, bumba meu Boi Bumbá."

Boi-Bumbá
Composição: Waldemar Henrique






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